PORQUÊ ELE INCOMODA
A Cidade de Pedra e o Coração de Carne: A Hipocrisia Diante da Rua e a Lição de Lancelotti
Em uma das maiores metrópoles do mundo, a miséria não é apenas um estado econômico; tornou-se parte da paisagem urbana, tão ignorada quanto um bueiro ou um poste de luz. São Paulo, a cidade que nunca dorme, é também a cidade que não deixa dormir. E é nesse cenário de concreto frio que se desenha o maior contraste moral do nosso tempo: a hipocrisia de uma sociedade que se diz "de bem" versus a humanidade radical do Padre Júlio Lancelotti.
A sociedade paulistana — e brasileira, por extensão — sofre de uma dissonância cognitiva grave. Nas redes sociais e nos discursos de domingo, prega-se a caridade, o amor ao próximo e a solidariedade. No entanto, na prática da vida cotidiana, o que impera é a aporofobia: a aversão, o medo e a rejeição ao pobre.
Essa hipocrisia se manifesta naquilo que chamamos de "arquitetura hostil". Pedras pontiagudas instaladas sob viadutos, bancos de praça divididos para impedir que corpos cansados se deitem, grades e esguichos de água em marquises. A mensagem da cidade é clara: "Você não existe, e se existe, não deve ser visto aqui". O cidadão médio, que se emociona com filmes sobre pobreza distante, é o mesmo que defende a higienização social de seu bairro, tratando seres humanos como resíduos que devem ser varridos para a periferia, para longe dos olhos, para que a estética do "progresso" não seja manchada.
É contra essa correnteza de desumanização que caminha, muitas vezes com dificuldade física mas com vigor moral inabalável, o Padre Júlio Lancelotti.
Sua figura, envolta em uma batina simples e muitas vezes calçando sandálias, tornou-se o epicentro de uma batalha simbólica e real. Padre Júlio não oferece apenas o pão — o que já seria muito em um país que voltou ao mapa da fome. Ele oferece o que a sociedade mais nega a quem vive na rua: o reconhecimento de sua humanidade. Ele chama pelo nome, ele toca, ele abraça, ele olha nos olhos.
A imagem do padre empunhando uma marreta para quebrar as pedras da arquitetura hostil sob os viadutos de São Paulo é uma das cenas mais poderosas da história recente do Brasil. Ali, ele não estava apenas quebrando concreto; estava tentando quebrar a dureza do coração de uma sociedade que prefere cimentar o chão a estender a mão.
O ódio que muitos destilam contra o Padre Júlio é sintomático. Ele incomoda não porque faz o "errado", mas porque sua bondade radical expõe a mesquinharia alheia. Ele é um espelho insuportável. Ao ver o padre beijando os pés de um morador de rua ferido ou partilhando o café da manhã na calçada, a sociedade é forçada a confrontar seu próprio egoísmo. É mais fácil chamar o padre de "agitador" ou inventar calúnias do que admitir que falhamos como coletividade.
O trabalho da Pastoral do Povo da Rua nos ensina que o oposto da pobreza não é a riqueza, é a justiça e a dignidade. Enquanto a sociedade constrói muros, grades e leis para se proteger dos desamparados, Padre Júlio Lancelotti nos lembra que a única proteção verdadeira para a humanidade é o afeto.
Em última análise, a luta de Lancelotti não é apenas pelos desabrigados; é uma luta pela alma da cidade. Ele tenta impedir que nos tornemos tão frios e duros quanto as pedras que ele, corajosamente, insiste em quebrar.
