ABANDONO EMOCIONAL

A Hipocrisia dos Irmãos de Fim de Semana
Por um Observador da Exaustão Alheia
Existe uma mentira antiga, repetida em almoços de domingo e festas de fim de ano, de que "quem tem muitos filhos, nunca morre sozinho". A biologia garante a descendência, mas a prática revela uma matemática cruel: na velhice, a família numerosa frequentemente se reduz a uma fração de um.
O cenário é quase um clichê trágico da classe média. Temos o pai ou a mãe idosa, cuja lucidez ou autonomia começa a evaporar, e temos a prole. Digamos, três ou quatro filhos. Mas, na hora de limpar fraldas, marcar geriatras, lidar com a demência ou simplesmente ouvir a mesma história pela milésima vez, a família se dissolve. Resta apenas um. O "escolhido". Ou melhor, a vítima da conveniência alheia.
O Filho-Estepe e os Irmãos-Satélite
Geralmente, sobra para quem "tem menos vida", segundo o julgamento arrogante dos outros. A filha solteira, o filho que não enriqueceu tanto quanto o irmão executivo, ou aquele que, por um erro de cálculo geográfico, mora perto demais. Esse filho não é eleito por mérito; ele é eleito por exclusão. Ele se torna o enfermeiro, o psicólogo, o motorista e o saco de pancadas emocional do genitor.
Enquanto isso, os outros irmãos orbitam como satélites distantes. Eles são os mestres da desculpa esfarrapada.
"Minha carreira está num momento crucial."
"Eu não tenho estrutura emocional para ver a mamãe assim."
"Moro longe, fica difícil."
A distância física vira um escudo moral. É fascinante como a "estrutura emocional" do irmão ausente é sempre preservada, protegida como uma relíquia sagrada, enquanto o filho-cuidador deve ter nervos de aço, costas de titânio e engolir o choro seco de quem não dorme há três anos.
A Visita do Inspetor
O auge da hipocrisia, no entanto, não é a ausência. É a presença esporádica.
O irmão ausente aparece no Dia das Mães ou no Natal. Ele chega perfumado, descansado e com a audácia de um inspetor sanitário. Ele olha para a casa, olha para o genitor e, com a crueldade de quem não sabe o preço de um pacote de fraldas geriátricas, pergunta: "A mãe não está meio magra?" ou "Por que você não levou o pai naquele médico que vi na TV?".
Eles são "turistas da desgraça". Visitam a decrepitude dos pais como quem visita um museu interativo, dão opiniões de especialistas de Google, bagunçam a rotina que o cuidador levou meses para estabelecer, e vão embora. Na saída, postam uma foto no Instagram segurando a mão enrugada do pai com a legenda: "Meu herói, amor eterno". Os likes chovem. O irmão que fica para limpar a bagunça não ganha nem um "obrigado".
O Abandono Emocional Disfarçado de Respeito
O abandono não é apenas físico; é um silêncio ensurdecedor. O filho sobrecarregado não lida apenas com a burocracia da doença, mas com a solidão do pai ou da mãe.
Porque os irmãos ausentes não ligam. Não querem ouvir a voz trêmula, não têm paciência para a repetição. Eles abandonaram os pais emocionalmente muito antes de abandoná-los fisicamente.
Eles "respeitam o espaço" dos pais, dizem. Mentira. Eles protegem o próprio conforto. É muito mais fácil mandar um PIX para ajudar nos remédios (quando mandam) do que gastar trinta minutos ouvindo as angústias de um idoso que sente a morte se aproximar. O dinheiro compra a absolvição da culpa, mas não compra companhia.
A Herança da Culpa (e dos Bens)
O final dessa ópera bufa é previsível. Quando o genitor falece, o filho-cuidador, exaurido, doente (porque quem cuida adoece junto), e sem vida própria, mal tem forças para chorar. Ele já viveu o luto em prestações diárias durante anos.
Mas, no velório, os irmãos ausentes choram copiosamente. O choro da culpa, o choro da performance. E, claro, no dia seguinte, a "fragilidade emocional" deles desaparece magicamente quando chega a hora de dividir a herança. De repente, todos estão presentes. De repente, todos têm opiniões fortes sobre quem fica com a casa, o carro ou as joias.
A conta nunca fecha. Para um, restou o fardo, a insônia, a renúncia da própria vida e a solidão compartilhada. Para os outros, restou a liberdade, a consciência convenientemente limpa e, no final, a parte igual no testamento.
Aos filhos que cuidam sozinhos enquanto os irmãos vivem suas "vidas importantes": vocês não são heróis, vocês são sobreviventes de um sistema familiar falido e egoísta. E aos que assistem de longe: a sua "falta de tempo" tem outro nome. Chama-se covardia.
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