MULHERES QUE SOFREM
A Hipocrisia de um País que maltrata Mulheres
Por uma sociedade em falência moral
Vamos rasgar o verbo e deixar a "cordialidade brasileira" de lado, porque ela não existe. O Brasil não é o país do carnaval e da alegria; para milhões de mulheres, o Brasil é um campo de concentração a céu aberto, onde o carcereiro dorme na mesma cama. Vivemos uma epidemia de feminicídio que transformou lares em matadouros e relacionamentos em sentenças de morte.
A realidade é crua e tem gosto de sangue: o "homem de bem", aquele que paga de cidadão exemplar na padaria, muitas vezes é o mesmo que espanca a esposa porque o feijão queimou ou porque ela ousou dizer "não". A masculinidade frágil do brasileiro médio não suporta a autonomia feminina. O sujeito lida com a rejeição na ponta da faca ou no gatilho do revólver. É a covardia travestida de "honra", o ciúme doentio romantizado como "excesso de amor". Amor não mata; o que mata é o sentimento de posse de quem acha que mulher é propriedade privada, tal qual um carro ou um terreno.
Até o Planalto teve que acusar o acontecimento. O presidente Lula, em falas recentes, escancarou sua preocupação com essa escalada macabra da violência contra a mulher. E não é para menos. Quando o chefe de Estado precisa vir a público, com tom de alarme, para dizer o óbvio — que estamos falhando miseravelmente em proteger metade da nossa população —, é porque o tecido social já apodreceu.
Lula citou a necessidade de rigor, de que "mão de marido não foi feita para bater em mulher". Uma frase que deveria ser óbvia no século XXI, mas que no Brasil soa revolucionária. O presidente toca na ferida de um país que naturalizou o olho roxo. O Estado brasileiro, historicamente, tem sido lento, burocrático e cúmplice. A famosa "medida protetiva" muitas vezes não passa de um pedaço de papel que não para bala, nem segura facão. Enquanto a burocracia carimba protocolos, o agressor afia a lâmina.
A indignação de Lula reflete um abismo: leis existem, o feminicídio é crime hediondo, mas a cultura do estupro e da violência segue firme e forte nos grupos de WhatsApp e nas conversas de bar. A impunidade é o adubo desse solo podre.
Chega de notas de repúdio e de "minutos de silêncio". O silêncio é o que mata. O que precisamos é de grito, de barulho e de cadeia. A cada vez que a sociedade pergunta "o que ela fez para deixá-lo nervoso?", ela aperta o gatilho junto com o assassino. A cada vez que um juiz solta um agressor na audiência de custódia, ele assina o atestado de óbito da próxima vítima.
A violência contra a mulher no Brasil não é um "caso isolado". É um projeto de poder patriarcal que se recusa a morrer. E enquanto não tratarmos esses agressores como o que realmente são — terroristas domésticos —, continuaremos contando corpos e lavando sangue das calçadas, fingindo que somos um país civilizado. Não somos. Somos uma barbárie que aprendeu a usar talheres.
