CAMINHADA PELA PAZ

O Som dos Tambores no Asfalto: A caminhada sagrada dos monges pela paz

​Quem transita pelas rodovias movimentadas ou pelas estradas de terra do interior, muitas vezes é surpreendido por uma cena que parece desafiar a lógica do mundo moderno. Em fila indiana, vestidos com túnicas de um amarelo açafrão ou branco, homens e mulheres caminham sob o sol e a chuva.

​Não carregam armas, nem bandeiras políticas. Em suas mãos, apenas um abano (tambor de mão) e baquetas. Eles são os monges da ordem Nipponzan Myohoji, e sua missão é tão antiga quanto urgente: caminhar e orar pela paz mundial.

​Quem são os "Monges da Paz"?

​A ordem Nipponzan Myohoji foi fundada em 1917 pelo mestre Nichidatsu Fujii (1885-1985), um amigo próximo de Mahatma Gandhi. A filosofia central dessa ordem budista é a não-violência absoluta e a crença de que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas um estado ativo de espírito que deve ser cultivado diariamente.

​Diferente de monges que se isolam em mosteiros no topo de montanhas, os membros da Nipponzan Myohoji acreditam que o templo é a estrada. Eles vão onde a humanidade está — com todas as suas dores, barulhos e conflitos.

​O Significado do Canto e do Tambor

​O som rítmico que acompanha seus passos não é música, é uma oração pulsante. Enquanto caminham, eles entoam o mantra sagrado:

"Naamu Myōhō Renge Kyō"


​Esta frase, reverenciada no Sutra de Lótus, pode ser traduzida como uma homenagem à Lei Mística do Universo. Ao recitá-la acompanhada pelo daimoku (o toque do tambor), os monges acreditam estar purificando o ambiente, despertando a natureza de Buda (a bondade inerente) em cada pessoa que os vê e harmonizando as energias do local.

​É uma forma de meditação em movimento. Cada passo é um voto de renúncia ao egoísmo; cada batida no tambor é um chamado para que a humanidade desperte do sono da indiferença.

​Uma Peregrinação de Fé e Resistência

​As "Caminhadas pela Paz" (Peace Walks) são jornadas de resistência física e espiritual. Muitas vezes, esses monges percorrem milhares de quilômetros a pé, atravessando estados e fronteiras. No Brasil, é comum vê-los percorrendo rotas que ligam grandes centros a locais sagrados ou históricos, passando frequentemente pelo interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

​Eles vivem da providência. Não carregam dinheiro para hotéis de luxo. Dependem da boa vontade de estranhos, dormindo em templos, igrejas de outras denominações, centros comunitários ou casas de famílias que abrem suas portas. Essa dependência cria um laço poderoso: ao aceitar um copo de água ou um prato de comida, o monge permite que quem doa pratique a generosidade.

​O Que Eles Nos Ensinam?

​Em um mundo onde a velocidade é a regra e o conflito digital é constante, a presença lenta e sonora dos monges na beira da estrada nos obriga a uma pausa.

  1. A Força da Simplicidade: Eles mostram que não é preciso muito para ser forte. A verdadeira força está na disciplina e no propósito.
  2. A Paz Exige Ação: A paz não cai do céu; ela se constrói passo a passo, literalmente. Exige esforço, suor e constância.
  3. A Unidade na Diversidade: Embora sejam budistas, eles oram pela paz de todos, independentemente de credo, raça ou nacionalidade.

​Conclusão

​Quando virmos os monges caminhando, não estamos apenas vendo religiosos exóticos. Estamos vendo um espelho de uma possibilidade humana. Eles nos lembram que, mesmo no asfalto quente da vida cotidiana, é possível manter o ritmo, a calma e o foco no que realmente importa: a harmonia entre todos os seres.

​Que o som de seus tambores continue ecoando, não apenas nas estradas, mas dentro de nossas consciências.

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