VIOLÊNCIA CONTRA MULHER

O Silêncio que Grita: Por Segurança sem Exposição na Serra Catarinense

Por Mariza Costa

​Nossa Serra Catarinense é conhecida por suas paisagens de tirar o fôlego, pelo frio que convida ao aconchego e pela força de sua gente trabalhadora. No entanto, por trás da neblina que cobre nossas montanhas, existe uma realidade dura que insiste em assombrar nossos lares: a violência contra a mulher.

​Como mulher e cidadã desta terra, sinto que chegamos a um momento crucial. Não podemos mais aceitar que os números de agressões sejam apenas estatísticas em jornais. Mas, mais do que isso, precisamos repensar a forma como buscamos soluções.

​Muitas vezes, cobra-se que a mulher denuncie, que ela "bote a boca no trombone", que ela apareça. Mas esquecemos que, em cidades do interior e comunidades onde todos se conhecem, a exposição pode ser tão perigosa quanto o próprio agressor. A mulher que se expõe teme o julgamento social, teme a represália e teme, acima de tudo, que a proteção prometida não chegue a tempo.

​É hora de invertermos essa lógica. Meu apelo às autoridades de segurança pública, aos gestores municipais e ao judiciário da nossa região é baseado em um tripé fundamental: Ouvir mais, Agir  e Expor menos.

1. Ouvir Mais (Acolhimento Real)

​As autoridades precisam criar canais onde as mulheres possam ser ouvidas em sua essência, sem burocracia excessiva e sem plateia. Precisamos de conselhos comunitários e reuniões de trabalho onde as soluções sejam debatidas com quem vive o problema, mas garantindo o anonimato e a discrição.

​Não queremos ser a manchete do dia seguinte; queremos ser as arquitetas da nossa própria segurança nos bastidores.


2. Agir Mais (Inteligência Preventiva)

​Ouvir lamentos não basta. A escuta deve se transformar imediatamente em ação estratégica. Se uma mulher sinaliza perigo, a resposta do Estado deve ser rápida e silenciosa. "Agir mais" significa monitoramento eficiente das medidas protetivas, significa patrulhas que impõem respeito sem precisar expor o endereço da vítima, e significa tratamento psicológico e financeiro para que ela não dependa do agressor. A ação deve ser institucional, pesada e firme.

3. Se Expor Menos (Proteção da Identidade)

​A luta contra a violência não pode exigir o heroísmo público da vítima. Não é justo pedir que a mulher, já fragilizada, carregue a bandeira da coragem em praça pública para ser notada. A exposição excessiva revitimiza.

As autoridades devem ser o escudo. Elas devem aparecer, elas devem falar, elas devem reforçar o cuidado. A mulher deve ter o direito de reconstruir sua vida no anonimato, segura e em paz.

​Nós, mulheres da Serra, conhecemos a realidade de cada bairro, de cada localidade do interior. Temos as soluções, sabemos onde o sistema falha queremos ajudar. Queremos sentar à mesa com delegados, juízes e prefeitos para desenhar estratégias eficazes. Mas queremos fazer isso com a garantia de que nossa voz será a ferramenta de mudança, e não o motivo de mais receio.

​Que o frio da nossa Serra seja apenas climático, e não o frio da indiferença ou do medo que congela a alma de tantas mulheres.

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